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Depois de Unicórnios a moda agora é ter uma Startup Camelo



O professor e investidor Alex Lazarow provocou um abalo sísmico no Vale do Silício ao “matar” os unicórnios e lançar o conceito de startups camelos. Em entrevista ao NeoFeed, ele critica o modelo baseado no crescimento a qualquer custo e afirma que os bons empreendedores estão no mundo inteiro

 


Alex Lazarow é investidor e professor

No começo de abril deste ano, um artigo publicado pelo investidor e professor Alex Larazow provocou um verdadeiro abalo sísmico no Vale do Silício.
No texto, Lazarow foi direto ao ponto sem meias palavras. “Esqueçam os unicórnios. “As startups, agora, precisam ser camelos” era o título do artigo, que foi traduzido e publicado pelo NeoFeed com a autorização do autor.

Lazarow dizia que o modelo do Vale do Silício, baseado em grandes aportes de fundos de venture capital para criar startups com valor de mais de US$ 1 bilhão, os chamados unicórnios, segundo o jargão do setor, estava esgotado.
No lugar dos unicórnios surgia, na visão de Lazarow, as startups camelos, “animais” que são mais resistentes, priorizam a sustentabilidade e, portanto, a sobrevivência desde o início, equilibrando forte crescimento e fluxo de caixa. E onde estão essas empresas?

“Estamos todos buscando modelos de negócios que sobrevivam a tempos de escassez. E o Vale do Silício é o último lugar para onde olhamos neste sentido”, disse ao NeoFeed Lazarow, que também atua na gestora de venture capital Cathay Innovation, que acabou de captar US$ 550 milhões para seu segundo fundo.

Para Lazarow, alguns dos melhores empreendedores do mundo estão em Detroit, Chicago, Amsterdã ou São Paulo, mas ninguém estava contando suas histórias.
Decidido a mudar essa narrativa, Lazarow tomou para si a missão de compilar os melhores cases e práticas dessas startups camelos e de seus idealizadores.
Ao longo de dois anos, o professor e investidor conversou com mais de 200 empreendedores ao redor do planeta e reuniu, em 304 páginas, 55 exemplos de negócios em seu novo livro Out-Innovate: How Global Entrepreneurs – from Delhi to Detroit – Are Rewriting the Rules of Silicon Valley, lançado no começo de abril pela editora Harvard Business Review Press.

Nesta entrevista, Lazarow renega o estereótipo do jovem empreendedor que largou os estudos, critica o modelo do crescimento “a qualquer custo” das startups unicórnios do Vale do Silício e cita Nubank e Neon como bons exemplos dessas empresas resilientes do Brasil. Acompanhe:

Você tem uma ideia bastante particular sobre o empreendedorismo moderno, poderia começar nos contando mais sobre isso?


Acredito que os melhores empreendedores estão focados em pensar negócios de grande impacto, mas acho que eles trabalham mais com a criatividade do que com a disrupção. E, na “escola” do Vale do Silício, disrupção é a máxima.

Mas talvez seja uma questão mais filosófica, então?

Sim, diria que é uma atitude mais filosófica mesmo. Não estou invalidando as aspirações de quem olha para uma indústria ineficiente e tenta desenvolver uma solução à base de software. É uma receita que funciona para muita gente, mas acredito que alguns dos melhores empreendedores estão criando mercado. Eles olham para áreas onde existem muitas lacunas e fazem três coisas: oferecem produtos ou serviços inéditos (e às vezes é algo que já existia no mercado informal); têm o mercado de massa como foco; e são o alicerce para outras oportunidades.

Você conseguiria apontar alguns exemplos disso?

Começo o livro falando de uma história que gosto muito, que é da Zola. Essa startup da Tanzânia trabalha com diferentes soluções para sistemas elétricos e tem, como público-alvo, 1,2 bilhão de pessoas que não têm acesso à energia. Essas pessoas não poderiam pagar à vista um painel solar ou coisa parecida, mas conseguem desembolsar uma quantia pequena por mês. Acho esse um case poderoso de como criar um mercado onde não existia. Também acho o case do GrubHub bastante interessante
“No Vale do Silício existe essa mentalidade do crescimento a qualquer custo, mesmo que isso signifique subsidiar a aquisição de usuários e queimar dinheiro”
O GrubHub trabalha com entregas, não me parece ser um novo mercado…Mas aqui falo da metodologia e da estratégia que eles colocaram em prática. No Vale do Silício existe essa mentalidade do crescimento a qualquer custo, mesmo que isso signifique subsidiar a aquisição de usuários e queimar dinheiro. Acredito que os melhores empreendedores pensam mais em longo prazo, ponderando uma administração responsável. E insisto na história do Grubhub porque eles atuam num segmento que é altamente subsidiado. Tanto que o DoorDash levantou US$ 2,1 bilhões em investimentos. No IPO, o GrubHub arrecadou “apenas” US$ 192 milhões, que é uma cifra bastante baixa para os padrões do Vale do Silício. Sei que a empresa trabalha num segmento multi-bilionário, mas quando entrevistei Mike Evans, fundador do GrubHub, as coisas fizeram sentido. Ele me contou como o negócio deles é sustentável e de como todas as rodadas de investimento tinham um propósito definido. Cheguei até a perguntar porque eles não tentaram levantar mais dinheiro e mais rápido, já que levou dez anos para a companhia abrir seu capital. Ele me disse que teria sido possível fazer esse movimento com dois anos de antecedência, mas que eles assumiriam um risco muito maior e desnecessário.  

Você reconhece alguns bons exemplos no Brasil também?


Acho que o trabalho do Pedro (Conrade) e do (David) Vélez merecem destaque também. A Neon e o Nubank são excelentes exemplos disso que discutimos aqui. A partir das soluções que eles propuseram, todas as instituições financeiras no Brasil tiveram de se mexer para atender mais e melhor os seus clientes, por preços mais justos. 

 

Acha que as empresas de venture capital já estão sabendo identificar e apoiar essas startups “camelos”?


O modelo de venture capital funcionou extraordinariamente bem no Vale do Silício para encontrar um certo tipo de companhia, mas acredito que agora ele esteja se adaptando a essa nova realidade. 

“Os bons empreendedores não estão apenas no Vale do Silício. Eles estão no mundo inteiro”

Qual seria essa nova realidade?
Agora, os bons empreendedores não estão apenas no Vale do Silício. Eles estão no mundo inteiro. Diria até que boa parte deles estão em mercados emergentes, onde os negócios já operam em um ecossistema, digamos, mais “desafiador”, onde há menos capital envolvido e as rodadas de investimento são mais demoradas. Acredito que entre as empresas de venture capital as palavras sustentabilidade e resiliência também serão levadas mais a sério e os dias de “grandes aportes em grandes riscos” serão mais rarefeitos.

Como é a liderança de uma startup camelo?


Aquela ideia que o Vale do Silício nos trouxe de que um empreendedor é um garoto de 22 anos, que tenta lutar contra grandes corporações vestindo moletom não se aplica mais. O que eu percebo é que os melhores empreendedores não têm nada a ver com isso. Eles tendem a ser mais velhos e trabalham com diferentes budgets, sistemas e funções. Eles têm diploma universitário e não seguem o script de largar os estudos. Frequentemente, são imigrantes, com visões diferentes e uma vasta rede de relacionamento. Isso faz com que eles estejam em contato com ideias que se aplicam a diferentes partes do mundo e sabem como adaptá-las a diferentes ecossistemas. Eu chamo isso de líderes polivalentes. Esses, para mim, são os grandes empreendedores: polivalentes.

Mas os principais “ícones” do Vale do Silício e do mundo do empreendedorismo seguem sendo Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg…

Sim, mas, ao analisarmos suas carreiras, veremos um pouco disso que falei. Pensando apenas na habilidade de gerar valor, Gates e Jobs se saíram melhor já numa fase mais madura. Por mais que eles tenham começado suas empresas bastante jovens, eles se tornaram melhores com a experiência. 

E a “farra” do IPOs muda com a proliferação dos camelos?


Certas coisas nunca vão mudar. Os investidores sempre vão procurar uma forma de lucrar com seus aportes, com saídas rentáveis. Os negócios bem-sucedidos serão sempre ativos atraentes, tanto para aquisições como para IPOs. Apesar disso, acho que pequenas e significativas mudanças estão a caminho. Estou particularmente intrigado em ver como essas empresas camelos se beneficiarão da listagem direta, entrando para a bolsa como companhias lucrativas, que não têm a necessidade de levantar capital. Também acho que veremos novas bolsas. Talvez uma só focada em startups. Sei que ainda é cedo para previsões, mas realmente acredito que não ficaremos apenas nas negociações de Nasdaq ou Nyse. Acho que os mercados secundários tendem a ganhar mais espaço. 

Como seria o ecossistema das startups camelos?


Temos muitos dados que comprovam o poder do “irmão mais velho”. Empreendedores bem-sucedidos se tornam modelos para seus ecossistemas. E, na maioria dos casos, até se tornam investidores-anjo. Quando seus negócios ganham escala, eles criam uma espécie de “escola” de como criar e crescer uma companhia. Acho que um bom exemplo aqui é o Hernan Kazah, cofundador do Mercado Livre. Depois de ter sucesso, ele se tornou mentor e investidor e é o “irmão mais velho” de outros negócios na América Latina (Kazah é um dos fundadores do Kaszek Ventures, o maior fundo de venture capital da América Latina). Isso acontece em outros países, claro, como a Aadhaar, na Índia, que propôs uma revolução no sistema de identificação biométrica para atender uma parcela considerável da população que sequer conseguia ter acesso a serviços bancários por falta de identidade. Ela começou um trabalho e, a partir de seu crescimento, todo um ecossistema nasceu. 

Essa crise que estamos vivendo faz com que você tenha vontade de reescrever alguma passagem do livro?

Ao contrário, acredito que o cenário atual só comprova o que coloco ali. Estamos todos buscando modelos de negócios que sobrevivam a tempos de escassez. E o Vale do Silício é o último lugar para onde olhamos neste sentido. Outra coisa que ficou evidente é que o empreendedor bem-sucedido não é aquele que quer ganhar dinheiro, mas o que quer ter um impacto no mundo. O crescimento e o sucesso financeiro são consequências de negócios vitais, administrados sem excessos. 

Até porque o camelo não sobrevive indo ao oceano, mas ao oásis.

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